Calúnia, injúria e difamação: a diferença, com exemplos

Por Renan Gaudereto Teixeira · OAB/MG 211.738
Publicado em · Atualizado em · 9 min de leitura

Qual a diferença entre calúnia, injúria e difamação
A diferença está no que é dito. Calúnia é dizer que alguém cometeu um crime que não cometeu. Difamação é espalhar um fato que mancha a reputação de alguém, verdadeiro ou não. Injúria é ofender a própria pessoa, com xingamento ou insulto, sem contar fato nenhum. Calúnia e difamação atingem o que os outros pensam da pessoa; a injúria, o que ela sente.
| Pergunta | Resposta |
|---|---|
| O que é dito? | Na calúnia, um crime falso; na difamação, um fato que mancha a reputação; na injúria, um xingamento |
| Outras pessoas precisam saber? | Na calúnia e na difamação, sim; na injúria, não |
| Desmentir antes da sentença encerra o caso? | Na calúnia e na difamação, sim; na injúria, não |
| Qual a pena básica? | Calúnia, 6 meses a 2 anos; difamação, 3 meses a 1 ano; injúria, 1 a 6 meses |
O que é calúnia
Calúnia é atribuir falsamente a alguém um crime determinado, dizendo o que a pessoa teria feito. É calúnia contar no grupo do condomínio que o síndico desviou o dinheiro da obra, sabendo que não é verdade, ou dizer ao patrão que o colega furtou o caixa na sexta-feira. A pena é de 6 meses a 2 anos de detenção e multa.
Quem repassa a acusação sabendo que é falsa também comete calúnia. Encaminhar a mensagem, compartilhar o print ou repetir a história conta. A calúnia contra quem já morreu também é crime, e nesse caso quem pode processar é a família.
Para ser calúnia, a acusação precisa ser de um crime. Dizer que alguém traiu o marido não é calúnia, porque traição não é crime, mas pode ser difamação.
O que é difamação
Difamação é contar a outras pessoas um fato que mancha a reputação de alguém, seja ele verdadeiro ou falso. É difamação espalhar no trabalho que uma colega chega bêbada, contar no grupo da família que o cunhado tem amante ou mandar aos vizinhos fotos que expõem a vida de alguém. A pena é de 3 meses a 1 ano de detenção e multa.
O que marca a difamação é o fato concreto. Não basta a opinião, como “ela é irresponsável”; é preciso um acontecimento, como “ela foi mandada embora por chegar bêbada ao trabalho”. Se o fato contado for um crime e for falso, já é calúnia.
A verdade não livra quem difama. Mesmo que o fato tenha acontecido, espalhá-lo para prejudicar a pessoa continua sendo crime, a não ser que a vítima seja funcionário público e o fato tenha a ver com o trabalho dele.
O que é injúria
Injúria é ofender a própria pessoa, atingindo a dignidade ou o decoro dela, com xingamento, insulto ou gesto. Não precisa haver testemunha, e a ofensa dita só para a vítima, numa mensagem privada, já é injúria. Chamar alguém de idiota, de vagabundo ou de ladrão numa discussão são exemplos. A pena é de 1 a 6 meses de detenção ou multa.
A injúria tem formas mais graves.
- Injúria real. Quando a ofensa vem com violência ou com um ato humilhante, como um tapa no rosto ou uma cusparada. A pena é de 3 meses a 1 ano, além da pena pela agressão.
- Injúria por religião, idade ou deficiência. Quando a ofensa usa a religião, a idade avançada ou a deficiência da pessoa. A pena sobe para 1 a 3 anos de reclusão e multa.
- Injúria racial. Quando a ofensa usa a raça, a cor, a etnia ou a origem nacional. Desde 2023 ela é crime de racismo, com pena de 2 a 5 anos, sem fiança e sem prescrição. Veja racismo e injúria racial.
“Ladrão” ou “roubou o caixa”: como saber qual dos três aconteceu
Para saber qual dos três aconteceu, olhe para o que foi dito. Se a pessoa disse que alguém cometeu um crime determinado, contando o que, quando ou onde, é calúnia. Se contou a outros um fato que mancha a reputação, sem ser crime, é difamação. Se só xingou, sem contar fato nenhum, é injúria.
A palavra “ladrão” mostra a diferença. Gritar “ladrão” numa discussão é injúria, porque é um xingamento. Dizer no grupo do prédio que ele “roubou R$ 500 do caixa da padaria na sexta” é calúnia, se for mentira, porque descreve um crime. Contar que ele “foi mandado embora da padaria por chegar bêbado” pode ser difamação.
A mesma mensagem pode ter mais de um crime. Um áudio que xinga a pessoa e ainda conta um crime inventado pode ser injúria e calúnia ao mesmo tempo, e cada um é analisado separadamente.
Qual a pena de calúnia, difamação e injúria
A pena básica é de 6 meses a 2 anos e multa na calúnia, de 3 meses a 1 ano e multa na difamação e de 1 a 6 meses ou multa na injúria. Ela aumenta conforme quem foi ofendido e como a ofensa se espalhou, e triplica quando o crime é cometido ou divulgado nas redes sociais.
| Situação | O que acontece com a pena |
|---|---|
| Contra funcionário público, por causa do trabalho | Aumenta um terço |
| Diante de várias pessoas ou por meio que facilite a divulgação | Aumenta um terço |
| Contra criança, adolescente, pessoa com mais de 60 anos ou com deficiência | Aumenta um terço |
| Em troca de pagamento ou de promessa de recompensa | Dobra |
| Contra a mulher, por ela ser mulher | Dobra, desde 2024 |
| Cometido ou divulgado em rede social | Triplica |
Com as penas básicas, a maioria dos casos vai ao Juizado Especial Criminal, onde a primeira audiência tenta um acordo. A multa da pena é calculada em dias-multa, conforme a renda de quem foi condenado, e não se confunde com a indenização pela ofensa. Quando a pena triplica pela rede social, o caso pode sair do Juizado e ir para a vara criminal. Veja como funciona o processo por calúnia e difamação.
Quando não é crime, inclusive se for verdade
Nem toda ofensa é crime. Não são crime a crítica literária, artística ou científica, a opinião desfavorável que um funcionário público dá no exercício da função e o que as partes ou os advogados dizem numa discussão dentro do processo. Na injúria, o juiz pode deixar de aplicar a pena quando a vítima provocou a ofensa ou quando houve revide na hora.
Também é preciso intenção de ofender. Uma brincadeira entre amigos ou um desabafo sem o propósito de atingir alguém pode não ser crime, mas isso depende do contexto e da prova. A crítica honesta a um serviço, sem xingamento nem fato inventado, em geral também não é.
A verdade conta, mas de um jeito diferente em cada crime. Na calúnia, provar que o crime aconteceu afasta a acusação, com algumas exceções previstas em lei. Na difamação, a verdade só livra quando a vítima é funcionário público e o fato tem a ver com o trabalho dele. Na injúria, a verdade não importa, porque o crime é o xingamento.
Quem pode processar e o que fazer agora
Na maioria dos casos, quem processa é a própria vítima, com uma queixa-crime feita por advogado no prazo de seis meses, contados de quando ela soube quem fez a ofensa. O boletim de ocorrência não abre o processo nem para esse prazo. Quando a vítima é funcionário público ofendido por causa do trabalho, ou na injúria por religião, idade ou deficiência, o Ministério Público também pode agir, se a vítima pedir.
Para quem foi ofendido, o primeiro passo é guardar a prova e contar o prazo. Veja o prazo de seis meses para processar e o que serve como prova.
Para quem foi acusado, a retratação, que é desmentir por completo antes da sentença, encerra o caso de calúnia e de difamação, mas não o de injúria. Se a ofensa foi feita pela internet, a vítima pode pedir que o desmentido saia no mesmo meio. Antes de responder à pessoa ou de apagar mensagens, veja o que não fazer agora.
Perguntas frequentes
O que é pior: calúnia, difamação ou injúria?
Pela pena, a calúnia é a mais grave, com 6 meses a 2 anos, seguida da difamação, com 3 meses a 1 ano, e da injúria simples, com 1 a 6 meses. A injúria por religião, idade ou deficiência e a injúria racial, porém, têm penas maiores que as três.
Chamar alguém de mentiroso é crime?
Pode ser injúria, se a intenção for ofender a pessoa. O contexto pesa. Numa discussão em que os dois se ofenderam, o juiz pode deixar de aplicar a pena, e a crítica a uma afirmação concreta, sem xingamento, pode não ser crime.
Xingar alguém sem testemunha é crime?
É. A injúria não precisa de testemunha, porque o que ela atinge é a dignidade da própria pessoa. A dificuldade está na prova, e mensagem, áudio ou alguém que tenha ouvido ajudam a mostrar o que foi dito.
Posso ser processado por repassar um print?
Pode. Quem repassa uma acusação de crime sabendo que é falsa também comete calúnia, e espalhar um fato que mancha a reputação de alguém pode ser difamação, mesmo que a mensagem tenha sido escrita por outra pessoa.
Calúnia contra quem já morreu é crime?
É. A lei pune a calúnia contra os mortos, e quem pode processar é o cônjuge, os pais, os filhos ou os irmãos. Difamação e injúria contra quem já morreu não têm essa previsão.
O crime de injúria tem fiança?
Na injúria comum, a pessoa em geral nem chega a ficar presa. Como a pena é baixa, a polícia faz um termo circunstanciado e o caso vai ao Juizado. A injúria racial é diferente, porque é crime de racismo e não tem fiança.



